Reflexão sobre a Sexta-Feira Santa

Por Joseph Ratzinger
Tradução: Pe. Antônio Steffen, SJ
Livro: Dogma e Anúncio (1973)
Capítulo terceiro: Meditações e Sermões

(…) Na nossa hora da história todos parecemos transportados verdadeiramente àquele ponto na paixão de Jesus, no qual ela se torna brado de socorro ao Pai: meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?

Que dizer a isso? No fundo, é uma pergunta a que não se pode responder com palavras e argumentos, porque atinge uma profundidade que o intelecto só e a palavra pronunciada por ele não podem alcançar: o fracasso dos amigos de Jó é o destino necessário de todos que aqui, positiva ou negativamente, com pensamentos e palavras eruditas, crêem poder resolver a questão. Ela só pode ser suportada, sofrida, com Jesus, perto de Jesus, que a sofreu por todos nós e conosco. Pensar arrogantemente que ela esteja liquidada – seja no sentido das revistas de estudantes, seja no sentido da apologética teológica – só pode conduzir a um desvio do ponto central. Mas é possível dar algumas indicações. Em primeiro lugar, seria de observar que Jesus não constata a ausência de Deus, mas a transforma em oração. Se quisermos incorporar a Sexta-Feira Santa do século XX na Sexta-Feira Santa de Jesus, devemos enquadrar o grito de angústia do século no brado de socorro dirigido ao Pai – transformá-lo em oração ao Deus que contudo está próximo. Aqui logo se poderia levar mais longe o pensamento e dizer: pode-se rezar com o coração honesto, quando não se faz nada para limpar o sangue dos perseguidos e enxugar suas lágrimas? O gesto de Verônica não é o mínimo que deve ser feito, para que se possa falar de algum modo em oração? Em princípio, pode-se rezar só com os lábios ou para isso se requer sempre o homem todo?

Contentemo-nos com esta indicação, para podermos considerar ainda um segundo pensamento: Jesus, realmente, participou do sofrimento dos condenados, enquanto nós – a maioria de nós – como um todo, apenas somos espectadores mais ou menos impressionados dos terrores deste século. Com isso, porém, está ligada uma observação de certa importância. O estranho é que a afirmação de que não pode mais haver Deus, quer dizer, o desaparecimento total de Deus, é uma conclusão principalmente para os espectadores do horror, que nas poltronas da sua prosperidade olham para o que há de mais terrível e procuram contribuir com a sua parcela para afastá-lo de si por meio da afirmação: se acontecem tais coisas, não há Deus. Entre aqueles que estão pessoalmente mergulhados nesses horrores, o efeito não poucas vezes é justamente o contrário: precisamente nisso descobrem a Deus. Neste mundo, a adoração subiu sempre das fornalhas dos lançados às chamas e não dos espectadores do horror. Não foi um acaso que precisamente aquele povo da história que mais foi condenado ao sofrimento, que era o mais esmagado e mísero não estando apenas nos anos de 1940-1945 em “Auschwitz”, se tornasse o povo da revelação – o povo que conheceu a Deus e o manifestou ao mundo. E não é um acaso que o homem mais esmagado, o homem que mais sofreu – Jesus de Nazaré -, foi e é o revelador. A fé em Deus vem de um rosto cheio de sangue e feridas, de um crucificado, ao passo que o ateísmo tem o seu pai em Epicuro – no mundo do apreciador farto.

Aqui reluz subitamente como um raio a seriedade sinistra que nos ameaça imediatamente e está contida numa frase de Jesus, que o mais das vezes deixamos de lado como inaproveitável: “Antes um camelo passar pelo furo de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu” – um rico, isto quer dizer: uma pessoa que está bem, que está saturada de prosperidade, conhecendo o sofrimento apenas pela televisão. Não queiramos passar demais facilmente por essa frase, que precisamente na Sexta-Feira Santa nos olha como a nos querer prevenir. É certo que não precisamos nem sequer nos é permitido atrair a nós o sofrimento e a miséria. Deus envia a Sexta-Feira Santa quando e onde Ele nos quer. Deveríamos aprender sempre mais – não só teoricamente, mas também na prática da nossa vida – que todos os bens nos vêm Dele como um dom de empréstimo pelo qual teremos de dar contas perante a Ele. E deveríamos aprender – mais uma vez  não só teoricamente, mas na modalidade do pensamento e da ação – que além da presença real de Jesus na Igreja, no Santíssimo Sacramento, existe aquela outra presença real de Jesus nos mínimos, nos mais espezinhados deste mundo, nos últimos, nos quais Ele quer ser achado por nós. Acolher esta verdade de modo novo é a exigência decisiva que a Sexta-Feira Santa nos faz ano por ano.

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