“Amizades de Facebook”: um sintoma da cultura consumista

Papa Francisco alerta: existe um consumismo de “conexões”, um consumismo que pouco se importa com as relações humanas

 

Durante a visita aos Estados Unidos, o papa Francisco ressaltou valores e virtudes como a liberdade, a solidariedade, a família, a vida e a fé, mas, no encontro com os bispos reunidos na Filadélfia, também abordou um mal que corrói dramaticamente a nossa sociedade: o consumismo.

O consumismo, disse ele, representa “uma espécie de empobrecimento resultante de um sentimento marcado e generalizado de solidão”.

“Ah, mas eu tenho ‘centenas de amigos’… É só dar uma olhada no meu perfil para ver a quantidade de ‘Likes’ nas minhas publicações!”, poderiam retrucar alguns ouvintes.

O papa não acha: “Por estarmos sempre atentos às últimas tendências, acumulando ‘amigos’ nas redes sociais, nós nos deixamos enredar por aquilo que a sociedade atual nos oferece: a solidão, acompanhada do medo do compromisso, numa corrida desenfreada para aparecer”.

Essa afirmação pode até magoar, mas, quando nos encontramos pessoalmente com nós próprios, depois de passar horas e mais horas interpretando um personagem na internet, constatamos a veracidade dessa observação.

O nosso materialismo não se limita aos bens puramente materiais que vendemos ou compramos. Ele se prolonga em nosso relacionamento com os outros: “Hoje, não se tecem mais relações diretas. A cultura atual parece nos incentivar a não nos vincularmos a nada nem a ninguém, num espírito de desconfiança geral. O que parece importar é seguir a última moda”.

“Existe um consumismo de ‘conexões’, um consumismo que pouco se importa com as relações humanas. Os laços sociais são apenas ‘meios’ para atender às minhas necessidades. Meu vizinho, com o seu rosto familiar, com a sua história e a sua personalidade, não me importa. Daí essa cultura que rejeita tudo o que não é ‘útil’ ou ‘satisfatório’ para o gosto do consumidor”, avaliou o papa.

As declarações de Francisco durante a viagem aos Estados Unidos não são novas: ele se refere sempre, e muito corajosamente, à necessidade de fomentar a “cultura do encontro”, oposta à “cultura do descarte” que todo o seu pontificado vem denunciando.

Suas referências à “paisagem pastoral em evolução” e aos “desafios” para o clero são coerentes com um célebre diagnóstico que ele fez sobre a Igreja: a Igreja é um “hospital de campanha após a batalha”.

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